Posts Tagged ‘Doidices’

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She just smiled and held my hand

agosto 19, 2009

Quando eu disse que tinha um caso com introduções, talvez uma explicação mais detalhada viesse a calhar. Existe um ponto da música onde ela se torna realmente memorável, a grande sacada, a “punch line”, como dizem na comédia. Essa faísca não nasce do nada e exige um bocado de sorte do compositor – não é o caso de desmerecer os litros transpirados, mas sorte aqui tem a ver com a velha equação oportunidade + preparo, significando que um bom riff não nasce por acaso. Algo tem que conspirar. Mas isso é outra história. O que quero destacar é a admiração que eu tenho por pequenos momentos, poucos segundos dentro de uma composição que surgem de forma tão catártica que é impossível ficar indiferente; antes deles, o tempo dá uma ligeira parada e em seguida tudo vem abaixo. Você viu o tanto de poeira que voou no Rock In Rio 3 quando começou Sweet Child O’Mine? É por aí. E aproveito pra listar cinco momentos que simbolizam, pra mim, essa catarse. Não preciso dizer que o efeito só surge se vistos desde o início, certo? Não vale pular pra parte que interessa. E clique no HQ se for o caso.

Pink Floyd – Shine On You Crazy Diamond

Remember when you were young? You shone like the sun. Leva quase 10 minutos para Roger Waters pronunciar a primeira frase da minha música preferida em todos os tempos. Mas a apresentação vem muito, muito antes. Começa com a clássica cama de teclados, feita para que o solo de entrada de David Gilmour deslize – um dos timbres mais límpidos já ouvidos em um disco de rock. Quando este termina, os volumes todos baixam e praticamente avisam: “prendam a respiração, porque lá vem”. E vem mesmo. Quatro notas arrebatadoras, que sempre arrancam aplausos na primeira intervenção em apresentações ao vivo. Syd Barrett não poderia ter pedido homenagem melhor. Aos 3:52.

The Who – Won’t Get Fooled Again

Após a ressaca de Tommy, Pete Townshend tentou dar sequência à produção de óperas-rock, mas acabou parindo um disco de formato mais convencional, Who’s Next. Com os integrantes ainda no auge criativo, e apesar da difundida fama de serem bem melhores ao vivo do que em estúdio, muitos consideram este o melhor esforço do Who no formato álbum. A matadora abertura, com Baba O’Riley, subsidia esse tipo de opinião. Mas entre momentos gaiatos (My Wife, Going Mobile) e sentimentais (Behind Blue Eyes, The Song Is Over), a curta viagem culmina no apoteótico final. Entre guitarras barulhentas, sintetizadores, viradas, paradas, voltas, mais guitarras barulhentas e sintetizadores, existe um grito. O grito. Quando tudo pára, e parece convergir para o final, Keith Moon começa a esmurrar o kit de bateria até o momento em que soa um berro, provavelmente o mais arrepiante que já ouvi. Momento definitivo na história do rock. Aos 7:50.

Bruce Springsteen – Jungleland

O Boss sintetiza facilmente: “a tale of gang violence”. O épico encerramento de Born to Run, obra magna do Boss, é emocionante do primeiro ao último pio. Desde a introdução com o violino até o último solo de piano, Bruce e sua E-Street Band não deixam de empolgar em nenhum momento com o “rock operário” que sempre dominaram. Mas um deles é protagonista aqui. Em toda sua carreira, Bruce trabalhou com diversos produtores e com eles moldou tanto seus rocks estradeiros quanto os momentos mais introspectivos, simplesmente com o violão e a gaita. Com exceção da dinâmica entre o Boss e seu velho comparsa Clarence “Big Man” Clemons: na hora de gravar o sax, são apenas os dois dentro do estúdio e mais ninguém. A cumplicidade se encarrega do resto. Bruce, em 75, deve ter olhado pro negão e falado: “vai que é tua”. A entrada é cortante. Ouça aos 4:24.

The Beatles – A Day In The Life

Uma única nota que entrou pra história. Sem saber, você provavelmente já ouviu este som em algum comercial, homenagem, programa de televisão, montagem, sei lá. A Day In The Life é bem categórica em dividir os papéis de Lennon e McCartney dentro de uma composição dos Beatles, com cada um tendo seu espaço para brilhar. Na transição da primeira para a segunda parte da música já é possível conferir a imensa “wall of sound” que vai se formando, um baita trabalho de produção do mestre George Martin. Vem o segundo verso de Lennon e quando a parede sonora se aproxima novamente, três pianos são tocados simultaneamente no estúdio, produzindo o mesmo acorde. Os caras simplesmente não podiam deixar de arrebatar o ouvinte até a última nota. Fecho de ouro. Aos 4:22.

Pulp – Common People

Só a historinha contada por Jarvis Cocker da aristocrata que quer ter “um dia de proletária”, pra ficar numa tradução livre e espirituosa, já vale toda a atenção. Mesmo assim, só o Pulp tem a fórmula pra fazer você dançar, rir, refletir e cantar junto, tudo na mesma música. Conhece aquela frase, segura na mão de Deus e vai? As mesmas iniciais, pelo menos Jarvis tem. No início, é só o teclado. A bateria entra marotamente. Um violino pede licença, e quando o vocalista confirma se a moça realmente quer dormir, viver e ver o que só gente comum vê, ele relata: “she just smiled and held my hand”. A frase que divide as águas demonstra no vídeo abaixo o que era uma banda no auge. A partir dos 2:40. E da feita que engrena, não pára mais.

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Vida longa, próspera e com aprovação social

agosto 13, 2008

Tenho um background geek. Desde criança, não bastava gostar de desenhos animados, filmes, séries, eu precisava coletar conhecimento sobre aquilo. Diversão de nerd é obter informação irrestrita sobre coisas tão fúteis quanto quadrinhos e videogames, e realização de nerd é quando o mesmo percebe que pode aplicá-lo na prática. A golpes de sabre de luz, esta oprimida classe conseguiu abrir seu caminho no establishment atual – nunca foi tão legal (e fácil) ser geek!

Mantenho alguns hábitos, como por exemplo uma mania por conhecimentos meio enciclopédicos – de quase qualquer assunto. Sabe aquele seu amigo que você gosta de tirar sarro “puxa, ele sabe até a ordem dos créditos de E.R. na terceira temporada”? Não renego nada disso, e a memória elástica ajuda bastante. Mas penso nas possibilidades de um moleque que começa com essas tendências hoje em dia. Com internet, não há limites. Tem como pesquisar praticamente tudo. E a legitimação do perfil praticamente virou o jogo a favor dos nerds – realities como As Gostosas e os Geeks (hilário), personagens como Seth Cohen e Hiro Nakamura, programas como The Big Bang Theory, Chuck, Greek… há 10 anos, falar em mulheres assim era como conjecturar sobre unicórnios. E aí estão, garotas que jogam Winning Eleven e vibram com O Cavaleiro das Trevas. Inacreditável.

Palavra de quem já teve quase uma dezena de consoles funcionando em casa.

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Teorias malucas (Parte 1)

julho 31, 2008

Disco que põe o primeiro single na posição da segunda faixa tem enormes chances de ser um tremendo sucesso, ou de pelo menos envolver o ouvinte a fim de que ele encare o disco até o fim, coisa rara hoje em dia. A razão é que, abrindo o próprio com uma música de impacto, você prepara a cama para a música já conhecida, e a empolgação toma conta do resto (isso, na minha crença ingênua de que alguém ainda compra discos por aí além de mim e outros gatos pingados).

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Chora, cavaco

junho 24, 2008

Quando você pensa que determinado assunto já foi exposto e abordado de todas as formas possíveis e conhecidas, o imponderável sempre dá um jeito de te passar a perna. Os Beatles, por exemplo. Toda e qualquer gravação da banda, seja em estúdio, ao vivo ou registrada no radinho do cachorro do Ringo, já foi devidamente registrada e posta à venda no mercado. É extremamente complicado você surpreender algum fã da banda (nem precisa ser dos mais ávidos) com um papo “cara, olha que sensacional, os Beatles tocando uma versão inédita de Strawberry Fields”, ou “baixei ontem um show menos conhecido deles, tem até Chega de Saudade enfiada no meio de If I Fell”. O mistério já era. Arque com as conseqüências de sua banda ter sido a mais importante do pop/rock do século XX, houve tanta demanda e escavação que chega um momento no qual simplesmente não há mais nada a ser descoberto. Ou há?

O mesmo vale para as batidas lendas e histórias em torno da mística do conjunto. Quem nunca ouviu os velhos papos: Paul McCartney morto? Yoko Ono partindo o grupo em dois? Show de despedida no telhado? Fulano que saiu da banda antes do sucesso e era pra ser “o quinto Beatle”? Cara, existem mais quintos Beatles do que Beatles verdadeiros! Pete Best, Stuart Sutcliffe, George Martin, Neil Aspinall, Brian Epstein, Billy Preston, isso pra ficar só em seis. Vai da necessidade do artigo/reportagem dar alguma ênfase à biografia de quem está sendo retratado, parece até uma atribuição conquistada por tempo de serviço. Pensem em Lennon e McCartney com uma guitarra apontada para o ombro do ajoelhado, que ouve dos dois algo tipo “I shall pronounce you, our new fifth Beatle”. Pâtz. Bom, o fato é que mesmo fofocas novas dos tempos em que eles existiram parecem não haver mais. Ou há?

Olha, eu sinceramente achava que não. E tenho vários amigos que sabem mais de Beatles do que eu, e aposto que nenhum deles nunca ouviu falar dessa aqui. Prenda a respiração: há uma comunidade no Orkut chamada “Hey Jude, Pega o Cavaquinho”. Nem me pergunte como cheguei lá. A descrição é bem gaiata, como de praxe, mas a parte que interessa vem agora. Receita:

1) Pegue qualquer disco com a gravação original de Hey Jude (coletâneas em geral resolvem. Past Masters, aquela One com capa vermelha, a dupla de capa azul) e ponha pra tocar.
2) Se quiser, vai curtindo a música. Mas quando o cronômetro marcar 5:36, cole o ouvido no som e preste atenção, porque alguém vai falar… pega o cavaquinho!

É, eu também achava que era papo.