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Steven Almighty

junho 1, 2008


Olha só que bacana, tem até nota fiscal… vou deduzir do IR

Em um blog de cinema que freqüento, o editor resolveu fazer um bate-bola com seus leitores e lançar algumas perguntas aleatórias para sacar o feeling do seu eleitorado, abordando desde os motivos pelos quais estas pessoas lêem o blog até situações hipotéticas envolvendo personalidades do Cinema – tipo aquela velha discussão “se você pudesse ressuscitar um ator, uma atriz e um diretor para trabalharem juntos, quem seriam?”. Brincar de dream team nessas horas é fácil, mas em um desses pingue-pongues, o editor surgiu com a seguinte pergunta:

* Se você pudesse aposentar um destes cineastas de imediato, qual seria? Spielberg ou Scorsese?

Uau. Você arrisca um palpite, na bucha? Eu estou na dúvida até agora. E o motivo é simples: por mais que seja um grande fã de Marty, não consigo me imaginar mandando Spielberg pendurar o megafone. Conheço diversos cinéfilos que fariam isso de olhos vendados, e juro que a resistência à sua obra é algo que não consigo entender. Scorsese é fantástico, ajudou a definir um jeito meio marginal de fazer cinema ainda nos anos 70, pérolas como Taxi Driver, Touro Indomável, Depois de Horas e Os Bons Companheiros (meu preferido), etc. Além do que, ele ama o que faz. É estudioso de diversas correntes e segue em plena atividade com projetos heterogêneos entre si. E tropeça, claro, como qualquer bom cineasta – vide Kundun, Gangues de Nova York e o recente Shine a Light, que glorifica um Rolling Stones mais circense do que banda.

Mas você já viu algum filme tosco de Spielberg? Algum que não seja belissimamente fotografado, editado com elegância, com trilha sonora marcante e atores bem dirigidos? Seu filme de estréia – Encurralado – é absolutamente sensacional. Ajudou a criar o conceito de blockbuster quando entregou Tubarão, e levou isto às últimas conseqüências com ET e a ex-trilogia Indiana Jones. Poderia até mesmo citar sua influência sobre outras produções de seus confrades (De Volta para o Futuro, Goonies, Poltergeist, Uma Cilada para Roger Rabbit) ou para a televisão (a fantasia de Amazing Stories, a anarquia em desenhos como Tiny Toon e Animaniacs, o drama de ER). Foi responsável por um dos melhores filmes de espionagem desta década – Munique – tendo inclusive abrido mão de qualquer ação promocional para divulgação. Quem cresceu assistindo aos seus filmes sabe que se trata de outro nível de entretenimento, e aí vem o ataque sobre sua “irrelevância artística”.

Spielberg fez coisas ruins? Claro que sim. É possível que ele esteja se tornando um moralista incorrigível? Também, vide sua fixação por finais felizes e embaraços frente a cenas mais desoladoras e violentas que filmara no passado. Mas quem há de contestar sua habilidade para mexer com emoções? A menos que você tenha coração de pedra, é quase impossível deixar de rir quando ele manda, vibrar quando ele manda, chorar quando ele manda. Algo nada simples – Brian de Palma é reconhecidamente competente, domina uma série de trucagens de câmera que muitos tentam imitar, mas é um cineasta gélido. E isto não o desabona. Por que o contrário deveria? A maneira com que Steven deixa sua marca junto a seu público é, provavelmente, a mais sensível das artes.

Há no YouTube um episódio emblemático de Amazing Stories, roteirizado e dirigido pelo homem. Procure por “Amazing Stories The Mission” (sem as aspas); está dividido em 5 partes, mas vou ficar devendo as legendas. De qualquer forma, é fácil de alugar. Com Kiefer Sutherland e Kevin Costner, são 50 minutos que põem no chinelo muito filminho de aventura, seja ele recente ou Sessão da Tarde.

Ah, faltou dizer quem eu mandaria pro chuveiro. Passo, é como escolher um filho favorito. Cada um recebeu seu primeiro Oscar das mãos do outro, e você quer que eu decida? Próxima pergunta!

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Conheça Peet

maio 16, 2008

Peet Gelderblom é um holandês que trabalha com comerciais/spots de TV e, nas horas vagas, publica charges muito bacanas sobre cinema. No site dele (linkado ao lado) você encontra suas duas séries: Directorama e Lost in Negative Space. Estas charges vinham sendo traduzidas pelo editor do site Cinema em Cena (também linkado), porém tiveram sua publicação interrompida por lá, acredito, por falta de tempo para a tradução. Lost in Negative Space tem uma temática mais genérica, com tiras independentes entre si, enquanto Directorama é feita de forma mais ou menos seriada, pois conta as desventuras de grandes diretores que já morreram, e que ao chegarem ao céu, são “agraciados” com a missão de inspirar os jovens (e não tão jovens) que ainda estão por aqui por baixo. O ponto de partida é justamente as mortes de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni – ocorridas com apenas um dia de diferença – e ainda conta com diversas participações: Woody Allen, Robert Altman, Stanley Kubrick, David Fincher, Alfred Hitchcock…

Resolvi conferir na própria matriz e rende umas boas risadas, principalmente se você é familiarizado com os cacoetes de certas personalidades e, claro, tiver uma boa noção de inglês. Mas só de ver o Steve Jobs inventando o Mickey Mouse já vale.

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Para seu deleite

maio 14, 2008

Alongando um pouco um dos nomes do post anterior, é interessante notar as reações que o nome Roxy Music desperta. Muito falado e pouco ouvido, o grupo inglês segue na ativa, o que pode passar uma impressão superficial de que se trata apenas de mais um dinossauro errante, como os já malfadados Creedence Clearwater Revisited e Deep Purple, outrora relevantes. O que é uma enorme besteira, pois mesmo que o Roxy não lance material inédito há mais de 25 anos, também nunca insultou seu público lançando material não-digno da história da banda, ou com apresentações burocráticas. A bem da verdade, a banda só voltou a se apresentar esporadicamente ao vivo desde 2001, e a exemplo do Television e do The Police (outros nomes que merecerão uma apreciação mais detalhada no futuro, aqui), entrega ainda a mesma classe que lhe deu o merecido prestígio nos anos 70.

Mais conhecidos no Brasil pelos hits radiofônicos More Than This (do último registro em estúdio, Avalon) e, por tabela, pelo maior hit solo do vocalista Bryan Ferry (Slave To Love, clássico das madrugadas de rádios especializadas em baladas “sensasuaves”), o Roxy surgiu como banda vanguardista no ínicio dos anos 70, entregando um som ora funkeado e dançante, ora introspectivo. E com uma classe absurda. Ferry está mais para entertainer do que cantor, pela inflexão debochada que utiliza em diversas músicas, além de entregar belas contribuições ao piano. Contar com um saxofonista na formação – Andy MacKay – também adiciona um molho à fórmula. Parte do estigma de vanguarda devia-se à presença do excêntrico Brian Eno nos sintetizadores, descobridor de idéias pouco ortodoxas sonoramente e que viria a se tornar um dos mais famosos produtores musicais nas décadas posteriores. Com a intenção de tornar o Roxy Music cada vez mais pop, Bryan Ferry e Eno desentenderam-se a ponto do último ter deixado a banda após apenas 2 discos. O que não exatamente afetou a qualidade produtiva de imediato, o que leva a muitas outras histórias que não convém comentar agora.

De qualquer forma, For Your Pleasure, último disco com Brian Eno, meio que sintetiza tudo isso aí. Mas vale também conhecer Virginia Plain, A Song For Europe, The Thrill Of It All…

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Fogo cruzado

maio 8, 2008

A primeira vez que ouvi falar em “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, pensei em um livreto de 300 páginas, pretensioso, chato e que apostava em mais uma tola lista hierárquica como trilhões que pipocam por aí a cada semana – a inclusão digital desfavoreceu essa prática como poucas outras, tamanha é a banalidade com que as famigeradas listas surgem. Primeiro contato visual, eis um livro com lombada quadrada, imensa, páginas em papel couché e uma decente classificação cronológica no lugar do tradicional ranking. Promissor.

Isso foi ano passado. Na segunda vez em contato com o livro, deu tempo de folhear. E gostar. Por mais pretensioso que soe o título, “1001” é um sopro de sobriedade dentre várias publicações que ficaram só na tentativa de transparecer o mesmo. O primeiro gol do autor/compilador Robert Dimery foi ter a sacada de que, bem, se vamos recomendar música pra galera, que seja de todo tipo; a intenção é que o tijolinho transceda toda e qualquer esfera – indie, black, metal, progressivo, punk, jazz – a fim de apresentar boa música a quem estiver interessado.

A segunda grande sacada foi a já citada ausência de hierarquia na apresentação dos registros. Dimery e cia. tornam sua compilação mais simpática a olhos de fãs dessa forma – prevenindo chiliques histéricos de quem acharia que seu álbum preferido pudesse ter sido injustiçado. E, afinal, como determinar diferenças de qualidade entre um disco do Led Zeppelin e outro do Stevie Wonder? Além disso, a disposição crescente de décadas é bastante instrutiva para neófitos; os maiores beneficiados, inclusive, com a publicação deste livro.

Pecando apenas por erros bestas de ortografia em alguns poucos artigos, “1001” mereceria uma recomendação no mínimo por evitar toda a afetação que geralmente cerca este tipo de compilação. E mostrar que, mesmo que você não consiga ouvir os tais 1001 antes de morrer, o processo será bem divertido.

Prediletos da casa do momento (estão todos lá):

Talking Heads – More Songs About Buildings And Food
Roxy Music – Country Life
Public Image Ltd. – Metal Box
Violent Femmes – Violent Femmes
Wilco – Being There

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1, 2, 3, 4…

abril 27, 2008

Eu tenho um costume meio estranho. Eu sou viciado em introduções. Já fiz isso várias vezes: pegar um disco, botar pra tocar o início da música, curtir aquele momento, parar, trocar por outro disco e fazer a mesma coisa com outra música. Uma boa introdução, em qualquer coisa que você faça, não vai responder por todo o seu trabalho – esse negócio de “a primeira impressão é a que fica” é um clichê batido e relativamente equivocado. Se você é apresentado a alguém e tropeça, pense novamente e drible o deslize. Mas não é legal mostrar a que veio logo de cara? Quantos guitarristas não dariam o próprio dedo mínimo para terem em troca a autoria de riffs como os de Brown Sugar, Rocks Off, Gimme Shelter, Jumpin’ Jack Flash e, o mais famoso de todos, Satisfaction? O mesmo dedo que eles devem roer todo dia, pensando: “aquele velho filho da mãe, fez a mágica CINCO vezes, cheirou em toda a vida mais do que todas as bandas dos anos 90 juntas e não morre! Life is unfair.”

Quando Orson Welles lançou A Marca da Maldade, ele já era uma lenda. Quase 20 anos depois de ter escrito seu nome na História com Cidadão Kane, surgiu enormemente gordo e caído de pára-quedas na direção de um filme no qual deveria, a priori, ter apenas atuado. Seu traseiro gordo na cadeira de diretor nos rendeu uma tomada fabulosa logo de cara, com o traveling contínuo por cerca de 3 minutos, desnudando a ação por vários cenários e perspectivas. A Marca da Maldade é, para muitos, a verdadeira obra-prima de Welles, não só pela sua introdução. Argumente-se que “ele era um gênio, natural esperar um trabalho deste porte”. E quem garante que o trabalho é a conseqüência, aqui? Excluído fosse Cidadão Kane, acredito facilmente que Welles teria concebido A Marca da Maldade do mesmo jeito. O traveling não surgiu porque ele era genial – ele permitiu a nós, isso sim, classificarmos-lhe como tal.

Eu sinceramente não esperava escrever assim de novo. Não me peçam textos do antigo blog (acho até que ninguém lembra mais que houve um), não guardei nada e hoje me envergonho de 90% do que estava lá. Eu falo muito, e pra não aborrecer ninguém à toa pessoalmente, pode curtir minhas besteiras por aqui, once in a while. Não faço idéia do quanto esse blog vai durar, mas ele já cumpriu seu papel. É um blog sobre nerdices, música, amigos, causos, cinema, e é claro, sobre introduções.

“Please allow me to introduce myself…”