Archive for the ‘Música’ Category

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Cócegas no cérebro

abril 13, 2010

Tinha uma matéria de capa da Bizz por volta do início da última década que perguntava “qual o disco que mudou sua vida”. Esse texto não é sobre isso. A matéria em questão colhia depoimentos de vários artistas, e por consequência nomes que variavam de It’s Alive dos Ramones até Construção do Chico Buarque. Chegou a vez do Lobão e ele dizia algo sobre sentir “cócegas no cérebro” ou coisa que o valha quando escutava Grand Funk Railroad. Fiquei intrigado, mas não achava aquilo sem sentido. Cócegas no cérebro é uma analogia perfeita pra tentar explicar as artimanhas que certas bandas/artistas empregam sorrateiramente, fazendo você questionar a si próprio se existe algo mais escondido naquilo que está ouvindo. Tentar descrever algo além disso seria inútil e se você não sabe do que estou falando é porque ainda não aconteceu com você. Eu tive certeza que sabia o que era isso quando escutei essa banda:

No final da década de 90 o Mogwai ainda esbarrava no preconceito de quem não havia gostado da piada “Blur are shite” (quando avacalharam o Blur ao mandarem imprimir camisetas que diziam, bem, que Blur era uma merda) e na própria pretensão: embora o som fosse instrumental, denso e climático, a banda dizia pra quem quisesse ouvir que era influenciada por heavy metal e Guns’n’Roses. Nunca tiveram apelo comercial. E a aura cult os perseguiu até meados de 2002, quando até mesmo os meios especializados pareceram ter desistido do Mogwai – aquilo nunca ia dar em nada, mesmo. Azar de quem não continuou acompanhando os escoceses. Emplacaram músicas em trilhas, revisitaram seu som tornando-o mais palatável e melhor produzido. Seguem prescindindo de vozes na maior parte do tempo, mas quando eles gravam coisas como Batcat até dá pra acreditar – finalmente – que eles gostam de metal. E mexendo com seu cérebro de formas que você não sabe bem explicar direito.

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Os manequins

setembro 1, 2009

Trans...Europe...Express...

Não sou mais um adolescente, então minha coleção de blusas de banda já não tem mais o tamanho de outrora. Mas confesso que fiquei chateado ao encontrar, dias atrás, uma camiseta sensacional do Kraftwerk – e conferir que não tinha pro meu tamanho. O desenho era uma das capas do Autobahn, disco que lançou os alemães pro mundo. E o impacto da imagem – assim como de muitas outras lançadas pelo grupo, como o Trans-Europe Express estilizado – é grande justamente devido às estudadas atitudes do quarteto; vejo o Kraftwerk como um dos grupos mais sinestésicos que existem, aliando música climática, minimalista, compassada, com uma iconografia e conceito marcantes. Não existem muitos por aí. As tais “bandas de uniforme”, como o Devo, precisam de uma ideia no mínimo curiosa por trás. E o quarteto alemão não só lançou mão de um baita conceito, como também lapidou um gênero musical. Sem maltratar ouvidos e com direito a direção de arte cuidadosa.

Queria tê-los visto ao vivo no finado Free Jazz Festival, onde foi possível até mesmo conferir “erros” de andamento, mostrando que nem estes robôs são perfeitos. Mas são bons o suficiente para te deixar na dúvida entre as pérolas minimalistas de The Man-Machine ou o túnel sonoro de Trans-Europe Express. “Abrindo” pro Radiohead, o telão anunciava Les Mannequins, o disco credita Showroom Dummies, uma das minhas preferidas. Mas Ralf Hütter avisa, em português: “nós somos os manequins”. Bom, que eu pudesse ser o manequim dono daquela camiseta, então. Fica pra próxima.

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She just smiled and held my hand

agosto 19, 2009

Quando eu disse que tinha um caso com introduções, talvez uma explicação mais detalhada viesse a calhar. Existe um ponto da música onde ela se torna realmente memorável, a grande sacada, a “punch line”, como dizem na comédia. Essa faísca não nasce do nada e exige um bocado de sorte do compositor – não é o caso de desmerecer os litros transpirados, mas sorte aqui tem a ver com a velha equação oportunidade + preparo, significando que um bom riff não nasce por acaso. Algo tem que conspirar. Mas isso é outra história. O que quero destacar é a admiração que eu tenho por pequenos momentos, poucos segundos dentro de uma composição que surgem de forma tão catártica que é impossível ficar indiferente; antes deles, o tempo dá uma ligeira parada e em seguida tudo vem abaixo. Você viu o tanto de poeira que voou no Rock In Rio 3 quando começou Sweet Child O’Mine? É por aí. E aproveito pra listar cinco momentos que simbolizam, pra mim, essa catarse. Não preciso dizer que o efeito só surge se vistos desde o início, certo? Não vale pular pra parte que interessa. E clique no HQ se for o caso.

Pink Floyd – Shine On You Crazy Diamond

Remember when you were young? You shone like the sun. Leva quase 10 minutos para Roger Waters pronunciar a primeira frase da minha música preferida em todos os tempos. Mas a apresentação vem muito, muito antes. Começa com a clássica cama de teclados, feita para que o solo de entrada de David Gilmour deslize – um dos timbres mais límpidos já ouvidos em um disco de rock. Quando este termina, os volumes todos baixam e praticamente avisam: “prendam a respiração, porque lá vem”. E vem mesmo. Quatro notas arrebatadoras, que sempre arrancam aplausos na primeira intervenção em apresentações ao vivo. Syd Barrett não poderia ter pedido homenagem melhor. Aos 3:52.

The Who – Won’t Get Fooled Again

Após a ressaca de Tommy, Pete Townshend tentou dar sequência à produção de óperas-rock, mas acabou parindo um disco de formato mais convencional, Who’s Next. Com os integrantes ainda no auge criativo, e apesar da difundida fama de serem bem melhores ao vivo do que em estúdio, muitos consideram este o melhor esforço do Who no formato álbum. A matadora abertura, com Baba O’Riley, subsidia esse tipo de opinião. Mas entre momentos gaiatos (My Wife, Going Mobile) e sentimentais (Behind Blue Eyes, The Song Is Over), a curta viagem culmina no apoteótico final. Entre guitarras barulhentas, sintetizadores, viradas, paradas, voltas, mais guitarras barulhentas e sintetizadores, existe um grito. O grito. Quando tudo pára, e parece convergir para o final, Keith Moon começa a esmurrar o kit de bateria até o momento em que soa um berro, provavelmente o mais arrepiante que já ouvi. Momento definitivo na história do rock. Aos 7:50.

Bruce Springsteen – Jungleland

O Boss sintetiza facilmente: “a tale of gang violence”. O épico encerramento de Born to Run, obra magna do Boss, é emocionante do primeiro ao último pio. Desde a introdução com o violino até o último solo de piano, Bruce e sua E-Street Band não deixam de empolgar em nenhum momento com o “rock operário” que sempre dominaram. Mas um deles é protagonista aqui. Em toda sua carreira, Bruce trabalhou com diversos produtores e com eles moldou tanto seus rocks estradeiros quanto os momentos mais introspectivos, simplesmente com o violão e a gaita. Com exceção da dinâmica entre o Boss e seu velho comparsa Clarence “Big Man” Clemons: na hora de gravar o sax, são apenas os dois dentro do estúdio e mais ninguém. A cumplicidade se encarrega do resto. Bruce, em 75, deve ter olhado pro negão e falado: “vai que é tua”. A entrada é cortante. Ouça aos 4:24.

The Beatles – A Day In The Life

Uma única nota que entrou pra história. Sem saber, você provavelmente já ouviu este som em algum comercial, homenagem, programa de televisão, montagem, sei lá. A Day In The Life é bem categórica em dividir os papéis de Lennon e McCartney dentro de uma composição dos Beatles, com cada um tendo seu espaço para brilhar. Na transição da primeira para a segunda parte da música já é possível conferir a imensa “wall of sound” que vai se formando, um baita trabalho de produção do mestre George Martin. Vem o segundo verso de Lennon e quando a parede sonora se aproxima novamente, três pianos são tocados simultaneamente no estúdio, produzindo o mesmo acorde. Os caras simplesmente não podiam deixar de arrebatar o ouvinte até a última nota. Fecho de ouro. Aos 4:22.

Pulp – Common People

Só a historinha contada por Jarvis Cocker da aristocrata que quer ter “um dia de proletária”, pra ficar numa tradução livre e espirituosa, já vale toda a atenção. Mesmo assim, só o Pulp tem a fórmula pra fazer você dançar, rir, refletir e cantar junto, tudo na mesma música. Conhece aquela frase, segura na mão de Deus e vai? As mesmas iniciais, pelo menos Jarvis tem. No início, é só o teclado. A bateria entra marotamente. Um violino pede licença, e quando o vocalista confirma se a moça realmente quer dormir, viver e ver o que só gente comum vê, ele relata: “she just smiled and held my hand”. A frase que divide as águas demonstra no vídeo abaixo o que era uma banda no auge. A partir dos 2:40. E da feita que engrena, não pára mais.

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Teorias malucas (Parte 1)

julho 31, 2008

Disco que põe o primeiro single na posição da segunda faixa tem enormes chances de ser um tremendo sucesso, ou de pelo menos envolver o ouvinte a fim de que ele encare o disco até o fim, coisa rara hoje em dia. A razão é que, abrindo o próprio com uma música de impacto, você prepara a cama para a música já conhecida, e a empolgação toma conta do resto (isso, na minha crença ingênua de que alguém ainda compra discos por aí além de mim e outros gatos pingados).

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Chora, cavaco

junho 24, 2008

Quando você pensa que determinado assunto já foi exposto e abordado de todas as formas possíveis e conhecidas, o imponderável sempre dá um jeito de te passar a perna. Os Beatles, por exemplo. Toda e qualquer gravação da banda, seja em estúdio, ao vivo ou registrada no radinho do cachorro do Ringo, já foi devidamente registrada e posta à venda no mercado. É extremamente complicado você surpreender algum fã da banda (nem precisa ser dos mais ávidos) com um papo “cara, olha que sensacional, os Beatles tocando uma versão inédita de Strawberry Fields”, ou “baixei ontem um show menos conhecido deles, tem até Chega de Saudade enfiada no meio de If I Fell”. O mistério já era. Arque com as conseqüências de sua banda ter sido a mais importante do pop/rock do século XX, houve tanta demanda e escavação que chega um momento no qual simplesmente não há mais nada a ser descoberto. Ou há?

O mesmo vale para as batidas lendas e histórias em torno da mística do conjunto. Quem nunca ouviu os velhos papos: Paul McCartney morto? Yoko Ono partindo o grupo em dois? Show de despedida no telhado? Fulano que saiu da banda antes do sucesso e era pra ser “o quinto Beatle”? Cara, existem mais quintos Beatles do que Beatles verdadeiros! Pete Best, Stuart Sutcliffe, George Martin, Neil Aspinall, Brian Epstein, Billy Preston, isso pra ficar só em seis. Vai da necessidade do artigo/reportagem dar alguma ênfase à biografia de quem está sendo retratado, parece até uma atribuição conquistada por tempo de serviço. Pensem em Lennon e McCartney com uma guitarra apontada para o ombro do ajoelhado, que ouve dos dois algo tipo “I shall pronounce you, our new fifth Beatle”. Pâtz. Bom, o fato é que mesmo fofocas novas dos tempos em que eles existiram parecem não haver mais. Ou há?

Olha, eu sinceramente achava que não. E tenho vários amigos que sabem mais de Beatles do que eu, e aposto que nenhum deles nunca ouviu falar dessa aqui. Prenda a respiração: há uma comunidade no Orkut chamada “Hey Jude, Pega o Cavaquinho”. Nem me pergunte como cheguei lá. A descrição é bem gaiata, como de praxe, mas a parte que interessa vem agora. Receita:

1) Pegue qualquer disco com a gravação original de Hey Jude (coletâneas em geral resolvem. Past Masters, aquela One com capa vermelha, a dupla de capa azul) e ponha pra tocar.
2) Se quiser, vai curtindo a música. Mas quando o cronômetro marcar 5:36, cole o ouvido no som e preste atenção, porque alguém vai falar… pega o cavaquinho!

É, eu também achava que era papo.

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Para seu deleite

maio 14, 2008

Alongando um pouco um dos nomes do post anterior, é interessante notar as reações que o nome Roxy Music desperta. Muito falado e pouco ouvido, o grupo inglês segue na ativa, o que pode passar uma impressão superficial de que se trata apenas de mais um dinossauro errante, como os já malfadados Creedence Clearwater Revisited e Deep Purple, outrora relevantes. O que é uma enorme besteira, pois mesmo que o Roxy não lance material inédito há mais de 25 anos, também nunca insultou seu público lançando material não-digno da história da banda, ou com apresentações burocráticas. A bem da verdade, a banda só voltou a se apresentar esporadicamente ao vivo desde 2001, e a exemplo do Television e do The Police (outros nomes que merecerão uma apreciação mais detalhada no futuro, aqui), entrega ainda a mesma classe que lhe deu o merecido prestígio nos anos 70.

Mais conhecidos no Brasil pelos hits radiofônicos More Than This (do último registro em estúdio, Avalon) e, por tabela, pelo maior hit solo do vocalista Bryan Ferry (Slave To Love, clássico das madrugadas de rádios especializadas em baladas “sensasuaves”), o Roxy surgiu como banda vanguardista no ínicio dos anos 70, entregando um som ora funkeado e dançante, ora introspectivo. E com uma classe absurda. Ferry está mais para entertainer do que cantor, pela inflexão debochada que utiliza em diversas músicas, além de entregar belas contribuições ao piano. Contar com um saxofonista na formação – Andy MacKay – também adiciona um molho à fórmula. Parte do estigma de vanguarda devia-se à presença do excêntrico Brian Eno nos sintetizadores, descobridor de idéias pouco ortodoxas sonoramente e que viria a se tornar um dos mais famosos produtores musicais nas décadas posteriores. Com a intenção de tornar o Roxy Music cada vez mais pop, Bryan Ferry e Eno desentenderam-se a ponto do último ter deixado a banda após apenas 2 discos. O que não exatamente afetou a qualidade produtiva de imediato, o que leva a muitas outras histórias que não convém comentar agora.

De qualquer forma, For Your Pleasure, último disco com Brian Eno, meio que sintetiza tudo isso aí. Mas vale também conhecer Virginia Plain, A Song For Europe, The Thrill Of It All…

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Fogo cruzado

maio 8, 2008

A primeira vez que ouvi falar em “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, pensei em um livreto de 300 páginas, pretensioso, chato e que apostava em mais uma tola lista hierárquica como trilhões que pipocam por aí a cada semana – a inclusão digital desfavoreceu essa prática como poucas outras, tamanha é a banalidade com que as famigeradas listas surgem. Primeiro contato visual, eis um livro com lombada quadrada, imensa, páginas em papel couché e uma decente classificação cronológica no lugar do tradicional ranking. Promissor.

Isso foi ano passado. Na segunda vez em contato com o livro, deu tempo de folhear. E gostar. Por mais pretensioso que soe o título, “1001” é um sopro de sobriedade dentre várias publicações que ficaram só na tentativa de transparecer o mesmo. O primeiro gol do autor/compilador Robert Dimery foi ter a sacada de que, bem, se vamos recomendar música pra galera, que seja de todo tipo; a intenção é que o tijolinho transceda toda e qualquer esfera – indie, black, metal, progressivo, punk, jazz – a fim de apresentar boa música a quem estiver interessado.

A segunda grande sacada foi a já citada ausência de hierarquia na apresentação dos registros. Dimery e cia. tornam sua compilação mais simpática a olhos de fãs dessa forma – prevenindo chiliques histéricos de quem acharia que seu álbum preferido pudesse ter sido injustiçado. E, afinal, como determinar diferenças de qualidade entre um disco do Led Zeppelin e outro do Stevie Wonder? Além disso, a disposição crescente de décadas é bastante instrutiva para neófitos; os maiores beneficiados, inclusive, com a publicação deste livro.

Pecando apenas por erros bestas de ortografia em alguns poucos artigos, “1001” mereceria uma recomendação no mínimo por evitar toda a afetação que geralmente cerca este tipo de compilação. E mostrar que, mesmo que você não consiga ouvir os tais 1001 antes de morrer, o processo será bem divertido.

Prediletos da casa do momento (estão todos lá):

Talking Heads – More Songs About Buildings And Food
Roxy Music – Country Life
Public Image Ltd. – Metal Box
Violent Femmes – Violent Femmes
Wilco – Being There