Archive for junho \24\UTC 2008

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Chora, cavaco

junho 24, 2008

Quando você pensa que determinado assunto já foi exposto e abordado de todas as formas possíveis e conhecidas, o imponderável sempre dá um jeito de te passar a perna. Os Beatles, por exemplo. Toda e qualquer gravação da banda, seja em estúdio, ao vivo ou registrada no radinho do cachorro do Ringo, já foi devidamente registrada e posta à venda no mercado. É extremamente complicado você surpreender algum fã da banda (nem precisa ser dos mais ávidos) com um papo “cara, olha que sensacional, os Beatles tocando uma versão inédita de Strawberry Fields”, ou “baixei ontem um show menos conhecido deles, tem até Chega de Saudade enfiada no meio de If I Fell”. O mistério já era. Arque com as conseqüências de sua banda ter sido a mais importante do pop/rock do século XX, houve tanta demanda e escavação que chega um momento no qual simplesmente não há mais nada a ser descoberto. Ou há?

O mesmo vale para as batidas lendas e histórias em torno da mística do conjunto. Quem nunca ouviu os velhos papos: Paul McCartney morto? Yoko Ono partindo o grupo em dois? Show de despedida no telhado? Fulano que saiu da banda antes do sucesso e era pra ser “o quinto Beatle”? Cara, existem mais quintos Beatles do que Beatles verdadeiros! Pete Best, Stuart Sutcliffe, George Martin, Neil Aspinall, Brian Epstein, Billy Preston, isso pra ficar só em seis. Vai da necessidade do artigo/reportagem dar alguma ênfase à biografia de quem está sendo retratado, parece até uma atribuição conquistada por tempo de serviço. Pensem em Lennon e McCartney com uma guitarra apontada para o ombro do ajoelhado, que ouve dos dois algo tipo “I shall pronounce you, our new fifth Beatle”. Pâtz. Bom, o fato é que mesmo fofocas novas dos tempos em que eles existiram parecem não haver mais. Ou há?

Olha, eu sinceramente achava que não. E tenho vários amigos que sabem mais de Beatles do que eu, e aposto que nenhum deles nunca ouviu falar dessa aqui. Prenda a respiração: há uma comunidade no Orkut chamada “Hey Jude, Pega o Cavaquinho”. Nem me pergunte como cheguei lá. A descrição é bem gaiata, como de praxe, mas a parte que interessa vem agora. Receita:

1) Pegue qualquer disco com a gravação original de Hey Jude (coletâneas em geral resolvem. Past Masters, aquela One com capa vermelha, a dupla de capa azul) e ponha pra tocar.
2) Se quiser, vai curtindo a música. Mas quando o cronômetro marcar 5:36, cole o ouvido no som e preste atenção, porque alguém vai falar… pega o cavaquinho!

É, eu também achava que era papo.

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Steven Almighty

junho 1, 2008


Olha só que bacana, tem até nota fiscal… vou deduzir do IR

Em um blog de cinema que freqüento, o editor resolveu fazer um bate-bola com seus leitores e lançar algumas perguntas aleatórias para sacar o feeling do seu eleitorado, abordando desde os motivos pelos quais estas pessoas lêem o blog até situações hipotéticas envolvendo personalidades do Cinema – tipo aquela velha discussão “se você pudesse ressuscitar um ator, uma atriz e um diretor para trabalharem juntos, quem seriam?”. Brincar de dream team nessas horas é fácil, mas em um desses pingue-pongues, o editor surgiu com a seguinte pergunta:

* Se você pudesse aposentar um destes cineastas de imediato, qual seria? Spielberg ou Scorsese?

Uau. Você arrisca um palpite, na bucha? Eu estou na dúvida até agora. E o motivo é simples: por mais que seja um grande fã de Marty, não consigo me imaginar mandando Spielberg pendurar o megafone. Conheço diversos cinéfilos que fariam isso de olhos vendados, e juro que a resistência à sua obra é algo que não consigo entender. Scorsese é fantástico, ajudou a definir um jeito meio marginal de fazer cinema ainda nos anos 70, pérolas como Taxi Driver, Touro Indomável, Depois de Horas e Os Bons Companheiros (meu preferido), etc. Além do que, ele ama o que faz. É estudioso de diversas correntes e segue em plena atividade com projetos heterogêneos entre si. E tropeça, claro, como qualquer bom cineasta – vide Kundun, Gangues de Nova York e o recente Shine a Light, que glorifica um Rolling Stones mais circense do que banda.

Mas você já viu algum filme tosco de Spielberg? Algum que não seja belissimamente fotografado, editado com elegância, com trilha sonora marcante e atores bem dirigidos? Seu filme de estréia – Encurralado – é absolutamente sensacional. Ajudou a criar o conceito de blockbuster quando entregou Tubarão, e levou isto às últimas conseqüências com ET e a ex-trilogia Indiana Jones. Poderia até mesmo citar sua influência sobre outras produções de seus confrades (De Volta para o Futuro, Goonies, Poltergeist, Uma Cilada para Roger Rabbit) ou para a televisão (a fantasia de Amazing Stories, a anarquia em desenhos como Tiny Toon e Animaniacs, o drama de ER). Foi responsável por um dos melhores filmes de espionagem desta década – Munique – tendo inclusive abrido mão de qualquer ação promocional para divulgação. Quem cresceu assistindo aos seus filmes sabe que se trata de outro nível de entretenimento, e aí vem o ataque sobre sua “irrelevância artística”.

Spielberg fez coisas ruins? Claro que sim. É possível que ele esteja se tornando um moralista incorrigível? Também, vide sua fixação por finais felizes e embaraços frente a cenas mais desoladoras e violentas que filmara no passado. Mas quem há de contestar sua habilidade para mexer com emoções? A menos que você tenha coração de pedra, é quase impossível deixar de rir quando ele manda, vibrar quando ele manda, chorar quando ele manda. Algo nada simples – Brian de Palma é reconhecidamente competente, domina uma série de trucagens de câmera que muitos tentam imitar, mas é um cineasta gélido. E isto não o desabona. Por que o contrário deveria? A maneira com que Steven deixa sua marca junto a seu público é, provavelmente, a mais sensível das artes.

Há no YouTube um episódio emblemático de Amazing Stories, roteirizado e dirigido pelo homem. Procure por “Amazing Stories The Mission” (sem as aspas); está dividido em 5 partes, mas vou ficar devendo as legendas. De qualquer forma, é fácil de alugar. Com Kiefer Sutherland e Kevin Costner, são 50 minutos que põem no chinelo muito filminho de aventura, seja ele recente ou Sessão da Tarde.

Ah, faltou dizer quem eu mandaria pro chuveiro. Passo, é como escolher um filho favorito. Cada um recebeu seu primeiro Oscar das mãos do outro, e você quer que eu decida? Próxima pergunta!