Archive for abril \27\UTC 2008

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1, 2, 3, 4…

abril 27, 2008

Eu tenho um costume meio estranho. Eu sou viciado em introduções. Já fiz isso várias vezes: pegar um disco, botar pra tocar o início da música, curtir aquele momento, parar, trocar por outro disco e fazer a mesma coisa com outra música. Uma boa introdução, em qualquer coisa que você faça, não vai responder por todo o seu trabalho – esse negócio de “a primeira impressão é a que fica” é um clichê batido e relativamente equivocado. Se você é apresentado a alguém e tropeça, pense novamente e drible o deslize. Mas não é legal mostrar a que veio logo de cara? Quantos guitarristas não dariam o próprio dedo mínimo para terem em troca a autoria de riffs como os de Brown Sugar, Rocks Off, Gimme Shelter, Jumpin’ Jack Flash e, o mais famoso de todos, Satisfaction? O mesmo dedo que eles devem roer todo dia, pensando: “aquele velho filho da mãe, fez a mágica CINCO vezes, cheirou em toda a vida mais do que todas as bandas dos anos 90 juntas e não morre! Life is unfair.”

Quando Orson Welles lançou A Marca da Maldade, ele já era uma lenda. Quase 20 anos depois de ter escrito seu nome na História com Cidadão Kane, surgiu enormemente gordo e caído de pára-quedas na direção de um filme no qual deveria, a priori, ter apenas atuado. Seu traseiro gordo na cadeira de diretor nos rendeu uma tomada fabulosa logo de cara, com o traveling contínuo por cerca de 3 minutos, desnudando a ação por vários cenários e perspectivas. A Marca da Maldade é, para muitos, a verdadeira obra-prima de Welles, não só pela sua introdução. Argumente-se que “ele era um gênio, natural esperar um trabalho deste porte”. E quem garante que o trabalho é a conseqüência, aqui? Excluído fosse Cidadão Kane, acredito facilmente que Welles teria concebido A Marca da Maldade do mesmo jeito. O traveling não surgiu porque ele era genial – ele permitiu a nós, isso sim, classificarmos-lhe como tal.

Eu sinceramente não esperava escrever assim de novo. Não me peçam textos do antigo blog (acho até que ninguém lembra mais que houve um), não guardei nada e hoje me envergonho de 90% do que estava lá. Eu falo muito, e pra não aborrecer ninguém à toa pessoalmente, pode curtir minhas besteiras por aqui, once in a while. Não faço idéia do quanto esse blog vai durar, mas ele já cumpriu seu papel. É um blog sobre nerdices, música, amigos, causos, cinema, e é claro, sobre introduções.

“Please allow me to introduce myself…”

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