
Olha só que bacana, tem até nota fiscal… vou deduzir do IR
Em um blog de cinema que freqüento, o editor resolveu fazer um bate-bola com seus leitores e lançar algumas perguntas aleatórias para sacar o feeling do seu eleitorado, abordando desde os motivos pelos quais estas pessoas lêem o blog até situações hipotéticas envolvendo personalidades do Cinema – tipo aquela velha discussão “se você pudesse ressuscitar um ator, uma atriz e um diretor para trabalharem juntos, quem seriam?”. Brincar de dream team nessas horas é fácil, mas em um desses pingue-pongues, o editor surgiu com a seguinte pergunta:
* Se você pudesse aposentar um destes cineastas de imediato, qual seria? Spielberg ou Scorsese?
Uau. Você arrisca um palpite, na bucha? Eu estou na dúvida até agora. E o motivo é simples: por mais que seja um grande fã de Marty, não consigo me imaginar mandando Spielberg pendurar o megafone. Conheço diversos cinéfilos que fariam isso de olhos vendados, e juro que a resistência à sua obra é algo que não consigo entender. Scorsese é fantástico, ajudou a definir um jeito meio marginal de fazer cinema ainda nos anos 70, pérolas como Taxi Driver, Touro Indomável, Depois de Horas e Os Bons Companheiros (meu preferido), etc. Além do que, ele ama o que faz. É estudioso de diversas correntes e segue em plena atividade com projetos heterogêneos entre si. E tropeça, claro, como qualquer bom cineasta – vide Kundun, Gangues de Nova York e o recente Shine a Light, que glorifica um Rolling Stones mais circense do que banda.
Mas você já viu algum filme tosco de Spielberg? Algum que não seja belissimamente fotografado, editado com elegância, com trilha sonora marcante e atores bem dirigidos? Seu filme de estréia – Encurralado – é absolutamente sensacional. Ajudou a criar o conceito de blockbuster quando entregou Tubarão, e levou isto às últimas conseqüências com ET e a ex-trilogia Indiana Jones. Poderia até mesmo citar sua influência sobre outras produções de seus confrades (De Volta para o Futuro, Goonies, Poltergeist, Uma Cilada para Roger Rabbit) ou para a televisão (a fantasia de Amazing Stories, a anarquia em desenhos como Tiny Toon e Animaniacs, o drama de ER). Foi responsável por um dos melhores filmes de espionagem desta década – Munique – tendo inclusive abrido mão de qualquer ação promocional para divulgação. Quem cresceu assistindo aos seus filmes sabe que se trata de outro nível de entretenimento, e aí vem o ataque sobre sua “irrelevância artística”.
Spielberg fez coisas ruins? Claro que sim. É possível que ele esteja se tornando um moralista incorrigível? Também, vide sua fixação por finais felizes e embaraços frente a cenas mais desoladoras e violentas que filmara no passado. Mas quem há de contestar sua habilidade para mexer com emoções? A menos que você tenha coração de pedra, é quase impossível deixar de rir quando ele manda, vibrar quando ele manda, chorar quando ele manda. Algo nada simples - Brian de Palma é reconhecidamente competente, domina uma série de trucagens de câmera que muitos tentam imitar, mas é um cineasta gélido. E isto não o desabona. Por que o contrário deveria? A maneira com que Steven deixa sua marca junto a seu público é, provavelmente, a mais sensível das artes.
Há no YouTube um episódio emblemático de Amazing Stories, roteirizado e dirigido pelo homem. Procure por “Amazing Stories The Mission” (sem as aspas); está dividido em 5 partes, mas vou ficar devendo as legendas. De qualquer forma, é fácil de alugar. Com Kiefer Sutherland e Kevin Costner, são 50 minutos que põem no chinelo muito filminho de aventura, seja ele recente ou Sessão da Tarde.
Ah, faltou dizer quem eu mandaria pro chuveiro. Passo, é como escolher um filho favorito. Cada um recebeu seu primeiro Oscar das mãos do outro, e você quer que eu decida? Próxima pergunta!